De Herberto Helder, demónio inocente, a Ramiro Torres, apaixonado vidente

[…] Ramiro Torres, de quarenta anos, apresentou uns meses antes que o velhote [Herberto Helder, ver artigo completo] o seu primeiro poemário, Esplendor arcano. Um livro editado pelo Grupo Surrealista Galego, de que ele mesmo faz parte, e uma publicação a que o autor se viu impelido pelo resto do grupo, farto de sofrer a falta de egocentrismo do Ramiro, uma atitude sem dúvida virtuosa mas que convertia a natural vaidade dos companheiros em uma experiência dilacerante.

No livro, são os arcanos da existência que são perscrutados pelo poeta. A poesia penetra na fase saturnal onde o corpo se revela em todo o seu esplendor, a mostrar um seu fresquio natural ao tempo que a “harmonia transversal que trespassa o caos”. Em consonância, o estilo oferece constantes contrastes térmicos, cromáticos, tácteis, substanciais… Da matéria excitada surge o mundo espiritual, como sublimação de aquela.

O discurso ilumina-se com descrições a modo de summa de epifanias sapienciais, de catálogo de eventos gnósticos, de compêndio de casos em que a sabedoria, como vulcão, cospe matéria iluminada, vestígios de Verdade. É Esplendor arcano, em definitivo uma meditação sobre a vida, e esta apenas um sonho acesso, flamejante quando percebemos a natureza sacra do nosso ateísmo. Porque somos um vestígio do nosso futuro, e do mesmo modo que há uma árvore dentro de uma semente também há um ser harmônico dentro de nós; desse futuro, quando inspirados pela escritura ou a leitura,  ligamos para nós próprios mercê à poesia: “Somos espuma de / uma idade vindoura” (p. 23). O arcano é, afinal, a fórmula do imanente, uma verdade que havemos de abstrair, compilar e interpretar enquanto não deixamos de apanhar as sujas pedras do caminho, ruínas do que seremos se cumprirmos o destino.

Vejamos agora um verso do poeta para ilustrar de novo a potência da metáfora: “Vulva da ciência órfica”. De que se trata, de uma visão carnal, científica ou esotérica? Sem dúvida das três em uma sorte de harmonia forçada, como uma imagem que se dispersa em três direções e ao tempo se alimenta de três mundos: o orfismo traz para a mesa o mistério, a ciência propõe o método e a vulva implica a matriz universal. Mais uma vez o poeta se contradiz, e na contradição, como uma pinga de chuva pinta no céu gris um abano colorido.

Esplendor arcano é também uma obra esgotada, ainda que se podam sempre achar exemplares novamente impressos a pedido dos mais perspicazes. São vários centos de livros os vendidos apesar da muito escassa presença em livrarias. Poesia que vende, sem vontade comercial. Porque este poeta também não faz literatura, embora se poda servir dela, como todo o mundo, se for preciso. {Ler máis en O levantador de minas}

Alfredo Ferreiro

Ramiro Torres: Campos de luz

Sabía dende hai tempo do labor poético de Ramiro Torres (A Coruña, 1973) por publicacións como Poseidónia ou Agália, mais sobre todo pola súa moi activa participación en Xalundes, o Grupo Surrealista Galego do que forma parte dende os seus inicios e no que se amosa como un dos máis entusiastas membros.

Tan intensa dedicación a esta fe poética explica a aparición de Esplendor arcano, o seu primeiro libro de versos, que é tamén o volume cabezaleiro do propio Xalundes, quen figura como selo editor desta obra, discreta na súa aparencia material, pero acaidamente fermoseada dende a cuberta (velaí a ilustración liminar de Alba Torres Ferreiro) ata o remate (co broche dun poema-epílogo de Pedro Casteleiro).

O poemario de Torres é todo el un big bang versal de longo alcance. Polas súas páxinas señorea a escrita cósmica, astral en plenitude. Composicións que saben da materia estelar, as “galaxias interiores”, os “múltiplos cometas” e esa “estrela/ perpétua que/ vive sobre/ as sombras das/ casas”, a mesma se cadra que aluma esta “brillante cosmogonia” poética.

Unha lírica de fusión universal do Eros, territorio propicio á pulsión dos corpos, á cópula solar e unha “arquitetura de artérias/ inflamadas em nós”, sempre “poderosamente nus,/ quebrando os/ ossos do medo” ata a víscera última […]. {Ler máis en Praza Pública}

Armando Requeixo